Quando você olha
para a tela,
a tela olha de volta.
Uma conversa sobre o que acontece com o olhar quando ele passa tempo demais diante de alguma coisa.
Nietzsche não estava falando de olhos.
Quando olhamos longamente para um abismo, ele “olha de volta”. A imagem fala do efeito que aquilo que contemplamos exerce sobre nós.
Medo, violência, poder, obsessão. Ficar diante de alguma coisa por tempo suficiente muda a pessoa que está olhando.
Hoje a metáfora ganhou hardware.
A tela registra o rastro do nosso olhar. Depois reorganiza o que vem a seguir.
A atenção virou dado.
O dado volta disfarçado de mundo.
É um circuito. Aquilo que vemos informa o sistema; o sistema altera aquilo que veremos depois.
Um livro também disputa atenção.
Tem capa, ritmo, surpresa, suspense, silêncio, imagem. Tudo isso foi feito para fazer alguém continuar.
Só que a página não se reorganiza porque você hesitou três segundos. Ela permanece.
Na escola, olhar também se aprende.
Quatro livros, quatro maneiras de fazer a atenção trabalhar.
O Urso que perdeu o Norte
Perder a direção obriga o olhar a procurar relação, percurso e sentido.
O voo do tucano,
o sonho do dragão
Texto e imagem colocam elementos distantes em relação dentro da mesma experiência de leitura.
O Cachalote
A caçada vira sequência, escala, cor e ritmo. O olho atravessa o mar junto com a narrativa.
O Tigre
Um poema curto que pede retorno. Repetição, forma e intervalo mantêm a imagem acesa.
Como fazer alguém
olhar duas vezes?
Uma imagem que não se esgota no primeiro olhar. Uma frase que deixa espaço. Uma virada de página que continua trabalhando depois que passou.
A gente
aprende a olhar.
Livros, imagens, canções, conversa.
Theatro da Paz · COP30 · Belém